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Um novo olhar para a contribuição das raças braquicéfalas orientais para a história do Tipo Bull

Um novo olhar para a contribuição das raças braquicéfalas orientais para a história do “Tipo Bull”

Carl Smencic & Don Fiorino
Revista “Dog World”, Março de 1984
Embora a história do desenvolvimento de várias categorias reconhecidas de raças puras de cães seja raramente contestada, a história de algumas raças são largamente, senão universalmente, aceites, pelos historiadores do meio canino. Destas, nenhuma raça pura tem uma história tão aceite como a que presumivelmente dá conta do desenvolvimento do Bulldog.
A história do Bulldog – ou caso o leitor prefira, o Bulldog Inglês – é de grande importância para muitos entusiastas do cão, devido ao facto desta raça, desde que se estabeleceu, foi usada extensivamente no desenvolvimento de muitas das nossas raças recentes, como seja o Bullmastiff, o Boxer, os Bouledogs Franceses, o Bull Terrier, o Staffordshire Terrier e o Boston Terrier, só para nomear as mais óbvias descendentes de Bulldogues actualmente registadas no A.K.C.
Discrepâncias no entendimento do componente básico utilizado no desenvolvimento destas e de muitas outras raças puras, teriam certamente dado lugar à falta de compreensão de muitas das raças actuais. À luz do exposto, é do nosso maior interesse, como criadores, juizes, proprietários e aficionados do cão de raça, estarmos certos de que a história do Bulldog que está tão divulgada, seja a mais precisa.
Entre as crenças mais profundamente estabelecidas em todo o mundo cinófilo estão (A) O Buldog é unicamente de origem britânica e(B) O Bulldog foi desenvolvido apenas de cães britânicos e, geração após geração, foi cuidadosamente seleccionado pelas suas características de bulldog. A literatura canina, desde a mais temprana até à dos nossos dias abunda com a regurgitação destas crenças. Com os propósitos de apresentar uma tese que seja concisa, basta uma pequena fracção de fontes menores nestes assuntos para convencer o leitor de que estas crenças estão firmemente estabelecidas. É interessante que nenhuma fonte primária, como sejam registos de criação, existam de molde a dar, mesmo superficialmente, contas do desenvolvimento do Bulldog.
Já no ano de 1803, no Volume 1 do “Sportsman Cabinet” é afirmado acerca do Bulldog que “Esta raça em particular é considerada por todos os naturalistas como estando em igual grau de originalidade com o cão de pastor e com o galgo irlandês; bem como tem sido uma produção nativa da Bretãnha”. Alguns anos mais tarde, nas suas “Anecdotes of Dogs” de 1829, o Capitão Thomas Brown iria repetir esta opinião. Brown disse que “O Bulldog é considerado pelos naturalistas como sendo uma das raças originais e peculiares da Bretãnha, e pode ser colocado no mesmo ponto, com o cão de pastor e o galgo irlandês”. Na segunda edição do seu trabalho, intitulado “The Bulldog. A Monograph” de 1901, Edgar Farman também teceu comentários sobre a origem britânica do Bulldog. Farman disse que “... Não pode haver diferença de opiniões sobre dois pontos. Primeiro quanto à extrema antiguidade do Bulldog, e segundo quanto ao indisputável direito à honra de ser considerado o cão nacional por excelência. Pertence puramente a este país; quando expatriado no passado longínquo detriorou-se de forma certa e rápida, embora esta observação não mais se aplique e seja visto pelos estrangeiros como emblemático para um inglês.”
Em 1977, o inglês Harry Glover, no seu livro intitulado “A Standard Guide to Purebreed Dogs” mantinha que “... por todo o mundo o Bulldog é reconhecido como algo peculiarmente britânico.” Finalmente, de uma forma algo menos assertiva, a mais recente edição do “The Complete Dog Book” do American Kennel Club diz que tanto quanto se sabe, o Bulldog teve a sua origem nas Ilhas Britânicas.

Apesar da atitude de alguns que tradicionalmente proclamam o Bulldog como de inquestionável origem brutânica, as dúvidas sérias surgem quando os historiadores da raça tentam aprofundar quais as raças componentes da base usada originalmente no desenvolvimento do Bullldog. Há básicamente duas escolas de pensamento que tentam explicar esta origem. A primeira sugere que o Bulldog tal como o conhecemos é uma variação especializada do Mastiff, e como tal, resultado de uma criação selectiva para as caracteristicas actuais. A segunda escola sugere que ambas as raças derivam de um antepassado comum, agora extinto, grande, de chanfro curto, uma raça “britânica” conhecida como Alano.
No que diz respeito à teoria de que quer o Mastiff, quer o Bulldog tiveram um antepassado comum, Edgar Farman afirmou que em 1901 era “geralmente admitido que ambas as raças tiveram a sua origem no Alano…”. Em 1973 o Coronel Bayley C. Haynes, no seu livro intitulado “The New Complete Bulldog”, viria a publicar novamente a opinião de que “agora é geralmente aceite que o Mastiff e o Bulldog tenham provávelmente um antepassado comum no Alano”.
Pelo menos uma das primeiras fontes britânicas, intitulada “Encyclopedia of Rural Sports”” estava, pelo menos, incomodada com a posição de que o atarracado, braquicéfalo e muito mais pequeno Bulldog fosse descendente directo, unicamente, quer do Mastiff quer do Alano. Esta fonte mantém que “O Bulldog é um animal artifical de origem duvidosa; este cão deriva directamente de um Mastiff de má qualidade; e a contorção dos membros, bem como o prolongamento da mandíbula inferior, fazem lembrar uma criação de má qualidade”. Esta fonte, portanto, pretende que acreditemos que a criação selectiva que deu origem ao Bulldog unicamente a partir do Mastiff, usou apenas Mastiffs deformados por “rickets”!
Com tudo o que tem sido dito sobre a origem do Bulldog, gostariamos de sugerir que está na hora defazermos uma revisão completa das nossas crenças nesta área e apresentar algumas ideias novas que, achamos, explicarão mais precisamente os primórdios do desenvolvimento do Bulldog e as raças que lhe deram origem. Pensamos ser totalmente desnecessário ver o Bulldog como sendo puramente descendente do Mastiff ou do Alano quando havia outras raças disponíveis na mesma área e época do desenvolvimento da raça, que sugerem muito mais semelhança de fenotipo com os primeiros Bulldogs. Também acreditamos que a crença tradicional de que o Bulldog é de origem britânica não é baseada em nada de concreto. De facto, se os entusiastas do Bulldog insistirem em atribuir fronteiras políticas ao local onde a raça nasceu, os dados sugerem que esta seja, mais provávelmente, Portugal. Tendo feito estas afirmações, vamos ver se as conseguimos manter para a satisfação do leitor.
O termo “Bulldog” (cão de touro ou cão touro) tem, simultâneamente, aplicações funcionais e descritivas. Funcionalmente o termo pode ser aplicado a qualquer raça que tenha participado no duvidoso desporto do “bull-baiting” da mesma forma que perdigueiro, coelheiro (podengo), pastor, etc…, são utilizados nos nossos dias. Descritivamente, não podemos dizer que o termo “Bulldog” possa apenas ser aplicado a cães que se pareçam com o Bulldog moderno, porque (a) a raça sofreu uma incrível série de mudanças de aparência ao longo dos anos, e (b) teóricamente, uma raça que possa ter o mesmo aspecto do Bulldog moderno pode ser desenvolvida a partir de bases diferentes das utilizadas na construção original da raça. A aplicação descritiva do termo Bulldog, deverá então referir-se aqueles cães que são das mesmas linhas, e que tendo feito parte da raça. Qualquer exemplo em particular, que tenha levado mistura (possivelmente de terrier), não acarreta a necessidade de alterar a descrição, pois a longo prazo, não terá influenciado genericamente a raça. A percepção geral da raça nunca foi seriamente afectada por este tipo de mistura, tanto quanto fomos capazes de determinar.
É importante que tenhamos consciência da diferença entre um cão a quem foi dado o nome funcional de “Bulldog” e uma raça a quem foi dado o título descritivo de “Bulldog” se pretendemos fazer uma tentativa séria de reconstrucção da história da raça.
O Coronel Haines menciona que a referência literária mais antiga ao Bulldoog aparece na literatura francesa. Infelizmente, não nos diz em que fontes e fomos incapazes de localizar esta fonte até à presente data. É nossa crença, contudo, que a referência primária francesa teria empregue a definição funcional do termo Bulldog, e assim, este Bulldog será irrelevante para a história da raça.
Outra referência a uma raça que teria sido referênciada como Bulldog por motivos puramente funcionais, embora o termo não seja utilizado na literatura da época, aparece no “Masters of Game” por Eduardo, 2º Duque de York, escrito entre 1406 e 1413. Eduardo refere-se a uma variante do Alano, conhecida na época como “Alano Veutreres”, que era “moldado como um galgo, com uma grande cabeça, grandes beiços e grandes orelhas, e que com o auxílio desses homens, assistiam-se no ataque ao touro…”. Temos que ter em mente que na sua descrição do “Alano Veutreres” Eduardo não está a descrever um Mastiff. Eduardo dedica um capítulo separado ao Mastiff e ainda menciona o facto do cruzamento do Mastiff com o Alano derivar um excelente cão de javali. O leitor deve ter presente, para referência futura, que este cruzamento era comum na época.
Muitos historiadores do Bulldog, na sua luta para encontrar as suas referências mais antigas na literatura, citam os escritos de Johannes Caius no seu livro “Of Englishe Dogges”, escrito em 1576; o primeiro dos livros de cães. Caius escreve sobre um cão que “excedia todos os outros nas condições cruéis… onde fincasse o dente, tomava tamanha e rápida presa, que um homem…REVER ISTO… Esta descrição não é, apesar das crenças de muitos dos historiadores do Bulldog e na nossa opinião, do Bulldog, mas sim do Alano do qual, para além de o descrever como cão de touro, Eduardo diz “… homens viram Alanos a chacinar os seus donos. De todos os modos os Alanos são traiçoeiros e maus…”. Para além disso, Eduardo diz-nos sobre o Alano que “… é o melhor cão para apresar e segurar todo o tipo de bestas e para o fazer depressa.” Sob esta luz é a óbvia ausência de referência ao Buldog na obra de 1576 do inglês Caius que é relevante. O trabalho de Caius sugere que em 1576 o Bulldog, tal como o reconheceríamos pela sua linhagem, não existia em Inglaterra, se é que existia nalgum lado.
A referência conhecida mais antiga ao Bulldog na literatura inglesa chega até nós sob a forma de uma carta de Prestwich Eaton para George Willingham de Londres, enviada de St. Sebastian em 1631. Nesta carta Eaton pede que lhe seja enviado um “bom cão mastim”, e que a sua caixa de garrafas cheia “do melhor alcoól” e, acrescenta “por favor procure-me dois bons Bulldogges e deixe que me sejam enviados no primeiro navio”. Esta referência de Eaton aos Buldogs é interessante não apenas por os chamar pelo nome da raça mas também por serem claramente distinguiveis do Mastiff numa época em que o Alano também era conhecido pelo seu nome descritivo. Terá sido entre os anos de 1576 e 1631 que o Bulldog terá sido desenvolvido, e apesar de sabermos que a raça existia em Londres em 1631, não temos qualquer razão para acreditar que se terá desenvolvido ai.
Esuecendo por um momento quer o Mastiff quer o Alano, agora necessitamos considerar outro desenvolvimento muito interessante que ocorreu durante o período de tempo que estamos a discutir. Este desenvolvimento, na nossa opinião, teria um profundo efeito no mundo do cão de raça e deu origem ao desenvolvimento do Bulldog.
No ano de 1557, Portugal, nação de navegantes, estabeleceu pela primeira vez relações comerciais com a China. Na China, cães pequenos, atarracados e braquicéfalos, conhecidos com Pai eram criados desde o Séc. I antes de Cristo. Cães de chanfro curto de vários tipos e tamanhos eram comuns na China da época, embora este tipo de desenvolvimento não tenha decorrido em mais parte nenhuma do mundo, e muito menos na Europa Ocidental. No entanto, os entusiastas europeus fizeram algumas tentativas para reclamarem o Pug (Carlino) como de sua criação, mesmo quando confrontados com o facto deste tipo de cães ser abundante na China. Em 1909, James Watson afirmava que “Embora tenhamos dado crédito à Holanda como a possuidora original do Pug, não estamos preparados para o provar. De facto há mais razões, com as provas que vimos até ao momento, para supor que é tão inglês como holandês”. É agora (hoje em dia) claramente entendido que os cães atarracados e braquicéfalos são inteiramente de origem chinesa. Como os cães braquicéfalos foram uma descoberta completamente nova para os ocidentais que os encontraram na China, não seria de estranhar que os primeiros comerciantes portugueses trazerem consigo alguns exemplares para os apresentarem aos seus conterrâneos no regresso a casa. Este foi aparentemente o caso, pois Portugal estabeleceu comércio com a China em 1557, enquanto que os holandeses e ingleses não estabeleceram contactos com a China antes de 1625 e 1637 respectivamente, enquanto que um cão tipo Pug é mencionado pela primeira vez na literatura europeia em 1618. Nesta data, Sir Roger Williams escreve nas “His actions of the low countries” que “o Principe de Orange mantinha uma raça de cães que era pequena e branca com narizes enrugados e achatados, chamados Camuses – camuses significa nariz achatado”.
Com isto em mente, os autores pensam ser, muito provavelmente, um cruzamento entre as raças orientais, atarracadas e braquicéfalas (descritas pro Sir Roger Williams como sendo de cor branca) que foram importadas pelos navegadores portugueses para Portugal da China ainda antes da Holanda e Inglaterra estabelecerem relações comerciais com a China, e o feroz combatente com touros conhecido como Alano (um cão branco pela descrição) que produziram os primeiros exemplares da linha que conhecemos como Bulldog (que são frequentemente cães brancos). Um cruzamento entre os primeiros cães orientais braquicéfalos e o produto de um cruzamento frequente entre o Mastiff e o Alano é outra hipotese provável, o que poderia indicar as variações de cor do Bulldog desde os primeiros tempos.
Porque é que este cruzamento foi considerado, não o podemos dizer. Talvez não tenha sido intencional; pode ter acontecido que uma fêmea de Alano de pequeno porte tenha cruzado com um cão de tipo Pug algo grande, produzindo o primeiro cruzamento de “Bull-dogs”, ou talvêz tenha sido a semelhança de cor, que adicionada ao nariz achatado dos cães orientais e o chanfro relativamente curto do Alano quem primeiramente sugeriu este cruzamento. Foi provavelmente um cruzamento de cão oriental/alano, com a descendência cruzada de novo com cães orientais uma e outra vez, que deu ao novo cruzamento a sua rude disposição e aparencia de Bulldog. Mas se foi este o caso, nós deveriamos pensar que os primeiros Bulldogues fossem muito parecidos com os Pugs . mas maiores e com um temperamento agressivo? Acontece que é exactamente este o caso. Mesmo tão tarde como 1825, o Capitão Thomas Brown descreve o Pug como se segue:
“Esta variedade é tão parecida com o Bulldog que torna desnecessária uma descrição detalhada. A principal diferença é o seu tamanho, sendo muito mais pequeno e a sua cauda, encaracolada sobre o dorso. Difere extremamente noutra característica particular, que é a coragem, sendo este animal tão tímido como o outro é valente”.
Uma referência anterior vem de “A General History of Quadrupeds” por Bewick, cuja segunda edição foi editada em 1791, descreve o Pug como sendo “de todas as maneiras formado como o Bulldog; mas muito mais pequeno e a cauda encaracolada sobre o dorso”. É interessante notar que oprimeiros desenhos de Bulldogs mostravam a cauda encaracolada para cima, mas não tão apertada.
Como o Bullbaiting era uma actividade que se tinha espalhado por toda a Europa Ocidental – que incluia Espanha, Portugal, França e Inglaterra na época – não é surpreendente que o Bulldog, tendo possivelmente sido produzido em Portugal entre mais ou menos 1560 e 1618, poderia estar bem estabelecido em Inglaterra por volta de 1631. Mas achamos que, sem ser pela tradição, não há qualquer motivo para insistir na origem britânica desta raça.












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